Sábado, 20 de Junho de 2009

Humanoversalização



O verso não é inconstante
o universo não é distante.
O homem é dissonante ser
vário numa instância.


Muitos homens formam um
objeto chamado inconstelação;
outros chamam de inconstatação
sermos diversos no que é comum:

Esvai-se o brilho dos olhos
e morremos como estrelas.
Perde-se sangue e costelas,
ficam apenas os pensamentos.



Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

A cadeira giratória




Nunca esquecerei do dia em que conheci Isabel. Parei em frente ao balcão de atendimento da biblioteca e perguntei se havia chegado um livro que eu encomendara. Ela, sentada em uma cadeira giratória, perguntou meu nome, virou-se e procurou em uma pilha de livros que havia próxima a ela. Eu, que tinha o costume de ir àquele lugar quase todos os dias por conta de algumas pesquisas, imaginei: "nunca vi esta garota aqui, deve ser nova neste trabalho." E foi tudo que pensei, sem ir além disso. Depois de alguns segundos, ela, ainda sentada, gira novamente a cadeira e volta-se para mim muito profissionalmente: "não chegou nada ainda". Eu, que também estava muito compenetrado em minhas atividades daquele dia, agradeci. Ao sair da frente do balcão encontrei um casal de amigos muito irreverentes. Sara e Jonas. Detive-me próximo ao balcão de atendimento por mais um tempo para cumprimentá-los, quando percebi alguém batendo desajeitadamente em meu ombro. Era a garota que há pouco me atendera e me causara estranheza ver na cadeira giratória. Contudo, já não era garota, eu agora percebia uma mulher; já não estava sentada, pusera-se de pé; já não estava atrás do balcão, atravessara o mesmo para comunicar-me que havia se enganado e encontrara meu livro em meio a tantos outros que foram encomendados. Eu, que tinha o costume de ir àquele lugar quase todos os dias por conta de algumas pesquisas, imaginei: "nunca vi esta garota aqui, será que tem namorado?". E isto não foi tudo que pensei, fui além disso. Depois de alguns segundos, ela, agora de pé, pediu que eu a acompanhasse até a secretaria da biblioteca e voltou-se para mim ainda de forma profissional: "aqui está seu livro". Eu que estava nada compenetrado em meu trabalho naquele momento, agradeci. Saí daquela sala sem lembrar de me despedir de Sara e Jonas. Sei que detive-me próximo àquele balcão por mais alguns dias, voltei lá quantas vezes pude só para ver Isabel. Isabel, em sua cadeira, sempre girando, voltando em minha memória, para erguer-se diante de mim novamente.


Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Fabricação




Um movimento desencadeia
movimentos de máquina e solidão:
o prisioneiro se vai caminho
e, à tona, o choro desenferruja
as engrenagens do peito,
as dores do músculo.

As peças fabricadas em série,
os movimentos cegos do corpo
e as montagens dos momentos:
tudo é produto da massa
que solda os fios da vida
e solta o cegos de mãos vazias.

A fábrica da vida
é só isso, por metáfora dizer:
bater martelos nos
parafusos da cabeça
a largar os loucos
fora de suas casas,
longe de seus amores.


Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Sentimento de Humanidade



Todo o segredo consiste
em saber o que faz
você de mim, o que faz
eu de você, assim feitos
um do outro.

Por toda parte me dedico
a investigar o que nos torna
tão próximos, o que torna
você a mim e, assim retorna
eu a você.

Mas se não houver segredo,
nada o que descobrir?
E se o que existir for só enredo,
imitação do homem
em outro refletido
em outro repetido
em tudo desmedido
do tamanho de seu egoísmo?

Se não houver o que desvendar
e tudo for apenas sucessão
e o sol e a lua forem apenas solidão
e reinventar a vida não for preciso
por ser cada um seu próprio Narciso

então, será a prova
que só desejamos um ao outro,
e só temos um pouco de amor
- como você por mim, imposto,
como eu por você, envolto -
por próprio orgulho e arrogância
e nunca por força do acaso
que atrai, ainda que em distância,
sem pedir que se explique
por que de tanto amor a quem for
que, por ventura, se dedique.


Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Olho no olho



Ver olho no olho
e gostar de alguém
não sou eu que escolho
isso está muito além
das forças que trago
no braço e no bolso
pois é o seu rosto
que tenho aqui -
agora vou lhe seguir.

Como eu sei dizer
que bem assim te vi
logo no amanhecer
não mais te esqueci
mas como posso explicar
disto que assim senti
sem nunca ouvir falar
de você no mundo afora
se só lhe conheci agora.

Ver olho no olho
e gostar de alguém
não é só coincidência
é mistério também
e mais que ciência
é o que não se explica
na língua e na lei
mas também não sei
é coisa de rainha e rei.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Delicário



Faço isso para que
não trema a mão
e cesse a febre
- esta que deixa frio lá fora
e queimaduras no coração.

Faço isso porque há
a fantasia da aproximação
e da eternidade galática
- a mesma que reside
no pó das estrelas
e no suor dos amantes.

Faço isso porque sei
o homem bravio
e o apassivador,
e sei a dama solitária
e a rainha governante.

Meu fazer é delicado,
ofício de saber a gente
que sonha com isso,
seja lá o que isso for
- esta forma de expor a esperança.


Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Olhos negros




E agora... o que eu faço sem os teus

olhos negros, grandes, distraídos para tudo
e para nada perto de mim ficando longe
e ficando perto das coisas de tudo e coisas
de nada ficando alto em teus olhos baixos

E agora... onde vai a estrela no teu corpo
ficando torto, caindo reto, restando matéria
igual a tudo o que há neste universo longo
na distância curta destas mãos tão finas
de cavar a vida e ficar morto

Agora, sem teus olhos, só restam meus olhos
enxergando negro e nada, grande e perto

Eu só queria saber até quanto é breve a luz,
e sempre o alcance de seu fim na humana vida.


Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Este é só mais um absurdo feito sob o efeito do álcool



Não pense de mim o exato
tamanho dos números somados
como se fosse um resultado final
pois há música inesperada
em meus ouvidos de bêbado crente
em um Deus que dança junto a mim
e sorri e me vê feliz e me abençoa.

Eu, bêbado com meus pés fincados
na terra prometida para ser invadida
por desgraças e águas profundas
tenho umas asas de borboletas
voando em direção ao pecado
das frutas mais gostosas,
das certezas mais solitárias
e vida mais absurda possível.

Ainda que eu seja pirata
ainda que eu assuste as pessoas
e fique surdo às conversas alheias
nada temerei frente à hipocrisia
dos sãos, das mãos que se julgam corretas
em seus trabalhos burocráticos
em suas crenças e projetos de proletários.

Eu vim para assustar aos sãos
e não aos loucos e prostitutas,
ensudercer-me com o rock n' roll
dos pecados dos falsos santos.
Eu vim para ser ator do sexo de Dionísio
das frases poucos conexas
e deixar-lhe perplexo com minha
mão masturbando o sexo à noite.

E se isto lhe parece um poema
feito à alta noite, saiba, amante,
que não é uma elegia de minha paixão
mas, antes, é uma tentativa de conhecer-me
e tornar larga a vida em forma de um poema
surreal, cantante nada, com minhas mãos
na lata de cerveja e em teu sexo
que eu gostaria de chamar, caso estivesse
eu mais bêbado, e contigo realmente aqui,
de grande lábios, vagina e buceta.

Então eu contemplo, surdo ao que venha
em formas de batidas violentas
do encontro de minha mão
com meu sexo ao teu sexo sonhado
e minha cabeça esvoaçante, se esvaindo
em alcoól e em desejo de ser feliz
como sou agora em poema e certeza
de lhe ver mais que umas palavra
uma realidade - meus dias felizes.

E se me achares pecador ou em falta
digo-vos o quanto és sóbrio
e desconhecedor das desgraças,
e não saíste na madrugada barulhenta
das grandes cidades que dançam
batendo as músicas, batendo as palmas
das mãos, dos pés no chão, do solo
contra o solo que conspira contra o homem
para que possa engoli-lo no fim de tudo
chamado vida, esta que me dá a devida
alegria, atenção e carinho ainda em vida.


Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O segredo da costela de Adão




Um dia é preciso saber
que o amor que me tirou
uma costela é o mesmo amor
que arranca corações, olhos
expõe as tripas e estupra
minha vontade de não amar,
invadindo o corpo e esvaindo
a torto mais que a direito
meu sangue na virgindade
do primeiro amor indesejado.

É esse sentimento, essa mão
que pesa nos ossos,
pesa igual ao sono
nas cabeças, e aos olhos,
passa a mão, faz cafuné
até que durmamos e reconheçamos
quem é a pessoa prometida,
esta a que acorda ao nosso lado
sem cicatriz, sem marca de nascimento.

Um dia, apenas, assim eu
desejaria experimentar
o segredo da comunhão,
o milagre das cruzas,
a graça dos animais,
tal mistério que move
alguém ter dentro de mim
o que eu mantenho em si
simultânea e divinamente.

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Um eclesiastes moderno




Não entendo por que
há histórias de amor
mentes destorcidas
dor de dente e unha encravada:

no primeiro caso
há tudo o que não
se gastou na mão
e insiste gozar

no segundo, existem
tanto os gênios
como os lunáticos
e todos têm prazer

no último, a gente
tropeça na pedra,
no caminho topa,
cai, levanta e sai xingando.

Nunca entenderei a razão
de que o contrário
também é válido
e também morre e fica pálido.